Não há risco maior do que ficar cego para o desconhecido

Por que ter mais informação não está nos ajudando a tomar melhores decisões?
Essa é a pergunta que Tricia tenta responder na sua palestra no TED. Ela é uma etnógrafa que estuda e aconselha empresas sobre os padrões de como as pessoas usam tecnologia.
Tricia começa apontando que a indústria da Big Data movimenta 122 bilhões de dólares, mas que mais e mais executivos chegam até ela dizendo “investimos em sistemas de big data, mas nossos funcionários não estão tomando as melhores decisões e, certamente, não estão apresentando mais ideias inovadoras”.
Depois conta sua experiência quando assumiu um cargo de pesquisadora na Nokia em 2009 (na época, a Nokia era uma das maiores empresas de telefonia celular do mundo). Ela passou muito tempo fazendo pesquisa etnográfica sobre como as pessoas de baixa renda usam a tecnologia: “Fiz coisas como trabalhar como vendedora ambulante, vendendo bolinhos para trabalhadores da construção civil. Fiz trabalho de campo, passando dias e noites em “cybercafés”, saindo com os jovens chineses, para entender como usavam os jogos e telefones celulares entre o movimento das áreas rurais para as cidades. Comecei, então, a perceber que até mesmo os mais pobres da China queriam um smartphone, e fariam de tudo para colocar as mãos em um aparelho. Muitas pessoas inteligentes e realistas disseram: “Esses smartphones, é apenas uma moda”. Mas eu tinha muitos dados, e estava tão confiante de minhas ideias que fiquei muito animada em compartilhá-las com a Nokia. Mas a Nokia não estava convencida, porque não eram informações importantes. Disseram: “Temos milhões de unidades de informação, e não vemos nenhum indicador de quem quer comprar um smartphone, e seu conjunto de dados de 100 pessoas, tão heterogêneo, é muito fraco para até mesmo levarmos a sério”. Bem, sabem o que aconteceu com a Nokia? O negócio deles caiu de um penhasco”.

Mais adiante ela diz que o problema não está no Big Data, mas sim em algo que ela define como o “viés da quantificação” – que é a crença inconsciente de valorizar o mensurável sobre o imensurável: “talvez trabalhemos ao lado de colegas assim, ou até mesmo toda a nossa empresa pode ser assim, onde as pessoas ficam tão obcecadas com aquela quantidade que não podem ver nada fora dela, mesmo quando apresentamos evidências bem diante dos seus olhos”.
E ela vai além para explicar que quantificar é viciante e perigoso, pois muitas vezes se ignora o que não é quantificável – o que ela ilustra mostrando uma imagem de um monte de palha em um celeiro e um ciclone ao fundo e dizendo: “o futuro que precisamos prever não está nesse palheiro, mas é aquele tornado que está vindo em nossa direção do lado de fora do celeiro. Não há risco maior do que ficar cego para o desconhecido”.

Então ela fecha a apresentação deixando um conselho sobre a importância de conciliar big data com o que chama de “thick data” – dados valiosos de pessoas, como histórias, emoções e interações que não podem ser quantificadas, o tipo de dados que coletou para a Nokia, que chega na forma de um tamanho de amostra muito pequeno, mas oferece uma profundidade de significado incrível.
Veja a palestra completa no site do TED (se preferir, ative a legenda em português):


